Tchekhov e o imaginário do real

Rodolfo Jacarandá

“Começara a oprimi-lo um desejo intenso de partilhar com alguém suas recordações. Mas, em casa, não se podia falar de seu amor e, fora, não havia com quem. Não ia fazê-lo com os moradores do prédio ou no banco em que trabalhava. Além disso, falar do quê? Amara ele então? Havia, por ventura, algo belo, poético, edificante ou simplesmente interessante, em suas relações com Ana Sierguéievna? Tornava-se necessário conversar, de modo indefinido, sobre amor, sobre mulheres, e ninguém adivinhava do que se tratava, e somente sua mulher movia as sobrancelhas escuras, dizendo:

_ Não fica nada bem a você, Dimítri, o papel de fátuo.”

Anton Tchekhov – A dama do cachorrinho

O respeito pela realidade bruta, vivida, cotidiana é algo tardio na arte.

Quando observamos uma pintura medieval que representa uma família fazendo um piquenique, por mais correlata e perfeita que ela seja, sempre há um toque angelical ou ideal, lírico ou romântico, que a torne uma projeção, há sempre algo que a coloque acima de qualquer cena que possa mesmo ter acontecido.

Nasceu tarde o desejo de mostrar a vida como ela é.

Isso talvez por que sempre tivemos uma certa aversão pela vida real, aquela que cada um de nós efetivamente vive. Não é difícil conceber um gênio medieval chamado a pintar um quadro e se vendo forçado a traçar em linhas galantes e cores generosas e harmoniosas aquilo que seus olhos percebiam como incolor, desengonçado e pouco interessante.

Há uma angústia existencial característica da humanidade que se revela no esforço por ser mais do que é. A arte parece ter servido a esse propósito, por muito tempo.

Por motivos como esse, para muitos pensadores, a arte foi, por bastante tempo, o lugar da ilusão, do falso, da enganação mesmo dos sentidos e da razão.

Nunca fez muito sentido gastar as cores infinitas da arte com as limitações dos pequenos cercados dentro dos quais nós sempre vivemos, despender o melhor das louvações linguísticas com a pobreza das nossas excitações ordinárias, arrancar às notas as melhores harmonias para cantar a infelicidade de quem não consegue atrair a atenção sequer daqueles com quem divide o mesmo teto.

Para quem sempre acreditou que a arte tem o dever de elevar e sublimar a pequenez humana, para quem sempre acreditou que a arte teria algum dever, como se fosse um prisioneiro de nossa necessidade de mentir para viver, a leitura da pequena história “A dama do cachorrinho” de Anton Tchekhov serviu ao propósito de provar porque mentir ou fingir é fundamental.

Mas a carreira do conto do genial mestre russo segue na direção contrária. Tchekhov é considerado o pai do realismo em literatura. De vez em quando, algum crítico brasileiro se esforça por demonstrar a grandeza de Machado de Assis afirmando: “só não é melhor que Tchekhov”.

A mente de Tchekhov produziu uma inflexão profunda na arte moderna: não apenas nos mostrou que estávamos equivocados ao desprezar a dura realidade dos fatos como material sagrado da arte. Trabalhando esse material, o autor russo nos ensinou muito sobre como acessar e conhecer a volúvel natureza humana.

Longe de entalhar tipos e caracteres gerais, longe de sociologizar as criaturas e seus contextos, Tchekhov consegue esculpir num bronze que se move, que se expande e contrai a cada cinzelada, que quase nunca é o mesmo.

É fascinante que você acabe terminando de ler uma história dizendo: “É isso, é assim mesmo!” Mas depois para pra pensar e percebe que, daquela personagem, talvez uma que outra característica você já tenha encontrado, um ou outro trejeito, um ou outro laivo de sensibilidade ou agressividade ou indiferença. Mas aquele sujeito você não conheceu. Ele não existe.

Donde, portanto, a identificação? Por que essa sensação quase mordaz que nos persegue ao ler Tchekhov de que estamos navegando por águas que conhecemos embora não consigamos propriamente definir?

Em “A dama do cachorrinho” Dmítri Dmítritch Gurov é um pai de família como qualquer outro. Que tenha se casado cedo, enquanto ainda estava na Universidade, que tenha três filhos e que sua mulher hoje pareça mais velha do que ele, nada disso em Gurov é fora do comum.

Gurov traía a esposa de modo contumaz por sentir, com outras mulheres, que era “fácil calar-se”, o que lhe dava uma agradável sensação de despreocupação.

Ao se interessar pela ‘senhora com um cachorrinho’ do título (Ana Sierguéievna), também casada, não há nada de surpreendente na escolha de Gurov por seduzi-la e envolvê-la em mais um de seus relacionamentos fugazes e passageiros.

Mas a coisa como um todo complica. O casal, que havia se conhecido em uma cidade de retiro e descanso (Ialta) se separa, voltando cada um para suas vidas ordinárias. Ela volta para S., e ele para Moscou.

Gurov até se esforça por retomar sua vida cotidiana, por acreditar que tinha algum dever em voltar a ser parte daquela “vida absurda, sem asas, uma mixórdia qualquer” à qual estava ligado mais por imperativos geográficos do que morais.

Mas ele acaba voltando a pensar em Ana e decide procurá-la, levando aquele caso frugal a um nível diferente do que normalmente sempre fizera.

Sua peripécia imoral acaba se tornando para ele uma forma de novo fôlego de vida. Algo que o alimentava, embora ele não soubesse definir bem o porquê.

Ana, que se afirmava “infeliz, para sempre infeliz”, sentia que, ao prolongar aquele relacionamento deveras criminoso, “iria sofrer mais ainda”. E mesmo assim, não resistindo à investida de Gurov, pede que ele se vá e jura encontrá-lo em Moscou. Indolente, mas apaixonada, ela passa a viajar para encontrá-lo rotineiramente, dizendo ao marido que ia ver um “médico de doenças de senhoras”. Suspeito, mas indiferente, o marido de Ana “acredita, e não acredita” na desculpa.

“A dama do cachorrinho” é um conto da parte final da vida literária de Tchekhov,,que morreria em 1904. E de seus melhores momentos. Ele morreu aos 44 anos, vítima de tuberculose, e tinha passado um tempo se recuperando de uma crise em Ialta.

Já dono de uma extensa fieira de admiradores dentro de fora da Rússia, a muitos deles ele decepcionou com a história sem desfecho de Ana e Gurov.

Não sabemos o que acontece ao final com a história dos dois amantes imprevistos e um tanto descontrolados diante das circunstâncias.

As pessoas parecem esperar do autor uma onisciência que as acalme, que impeça o terrível mal-estar, o desgostoso desconforto de não saber muito bem o que está acontecendo, as causas, as verdadeiras causas de tudo aquilo que o ledor começa a julgar por certo ou errado, conveniente ou inconveniente, aceitável ou não, justo ou injusto.

Um dos encontros do casal em Moscou acontece após o pai zeloso levar a filha mais velha à escola. Durante o percurso, ele observa os transeuntes e  reflete sobre a vida autêntica, escondida e oprimida pelas convenções sob as quais todo homem vive.

Esse seu “mistério individual”, que “todo homem culto se afana por ver respeitado”, essa coisa que alimenta apesar do gosto de impureza, essa rebeldia possível de adulto, com enorme apelo às possibilidades trágicas, esse cenário composto para causar problema, e, pior, para causar problemas para os outros (o marido dela, a esposa dele, os filhos, etc.), tudo isso exercia sobre Gurov uma atração irresistível que sua experiência parecia dominar e controlar.

Mas, como todo aquele que se aventura a dar um passo a mais em território inexplorado, Gurov não sabe o que fazer.

Ele perde o controle, e, junto, perde o conforto, a segurança, a certeza do agir. Está diante de uma confusão para a qual não encontra saída, especialmente por não ter uma compreensão muito clara do que quer (Ana?) e do que não quer (a casa, a esposa?).

Mas Tchekhov encontrou uma saída para a reflexão que há milênios se faz costumeira entre homens e mulheres. Ele encontrou uma abertura nova para explorar, por meio da qual nos incomoda a ponto de nos demover de nossa posição confortável de árbitro do destino dos dois:

“Tinham a impressão de que mais um pouco e encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”.

Assim, a história acaba sem final. É de se conceber o impacto no leitor de fin-de-siècle, 1899, a decisão de não amarrar todas as pontas, de não bancar o deus da história.

Tchekhov apresenta ao incauto a era contemporânea. Se Nietzsche foi o profeta de um novo tempo, Tchekhov foi um aliado de primeira hora.

Quase ninguém compreendeu, em 1888, o quanto Nietzsche foi culturalmente visceral ao afirmar que Deus havia morrido.

O pensador alemão definia ali a morte dos fundamentos últimos, a morte da obsessão fundamentalista ocidental de encerrar em caracteres inescapáveis as soluções para a natureza, a vida do homem, suas crenças, seu passado e futuro, seu presente histórico.

Tchekhov abre mão de ser esse deus da obra.

Ele não só divide a sua tarefa com o leitor. Ele nos apresenta um meio pelo qual nosso papel cresce como intérpretes, como interlocutores. O que se trata por experiência da arte aqui é algo muito distinto do que sempre foi.

Estamos com Gurov e Ana: “Como libertar-se daqueles insuportáveis liames?”

Até hoje a maioria das pessoas não suporta uma reflexão não-normativa; a maioria das pessoas não compreende bem nem mesmo uma boa conversa que não termina em: “_ Bom, resumindo, nesse caso deve-se fazer isso!”

Gurov e Ana não sabem bem o que estão fazendo. Imagino o terrível momento em que a esposa de Gurov, descobrindo o caso extra-conjugal, interroga o marido: pelo menos, diga-me o porque?

Ansiamos por respostas definitivas, ansiamos pelo fundamento último. Mas será que, em última instância, não somos mesmo algo que não sabe direito o que é, muito menos o que quer?

Seja o que for, quando foi preciso escrever sobre isso, ninguém melhor do que Tchekhov foi capaz de fazê-lo.

Há uma querela antiga sobre a falta de desfecho e os elogios e as críticas a esse ponto na obra de Tchekhov, não só com relação a “A Dama do Cachorrinho”. Mas isso já passa perto daquela outra velha discussão sobre a fidelidade da pobre Capitu. Ou seja, é coisa de quem ainda não entendeu direito a coisa toda.

Com Tchekhov estamos um pouco ali onde Gurov, perto de seu final, ainda está até hoje diante do seu pequeno e pouco interessante drama existencial: como nos libertarmos desses liames insuportáveis, nossa finitude, nossa indecisão, nossa falta de coragem, nossa ansiedade. “_ Como? Como? – perguntava ele, pondo as mãos à cabeça. _ Como?”

Com “A dama do cachorrinho” Tchekhov nos ensinou que o melhor a fazer é reconhecer que o mais difícil, para cada um de nós, é compreender que não há respostas para um final definitivo ou, talvez, que o mais complexo sempre está por vir.

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A história da lenda

Raul – o início, o fim e o meio (2011)

“Lenda não tem história. Lenda é lenda. O Raul é uma lenda

Paulo Coelho

Renato Niemeyer

Voilà! Com algum atraso, e não sem certa cobrança, finalmente me venho juntar ao grupo. Em minha defesa posso alegar que habitar longínquos rincões do varonil torrão não ajuda muito a cultivar a crítica cultural (se não por outro motivo, pela pura e simples falta de “material de trabalho”!). Mas não é nada que uma passagem pelos planaltos de Piratininga não resolva.

“Raul Seixas – o ínicio, o fim e o meio” não é uma obra-prima cinematográfica – dificilmente um documentário um dia será –, mas tem o mérito de contar de forma multilateral a história do maior artista da música brasileira.

Neste ponto acho importante dizer que sempre advoguei a imprestabilidade de listas de maiores, melhores e quejandos. Questões como “qual é a melhor música de todos os tempos?” ou “e o melhor filme?” sempre me suscitaram um certo desprezo. Todavia, em relação a Raul peço e mim mesmo uma licença poética para abrir uma exceção: ele foi o maior artista da música brasileira.

Raul foi um verdadeiro artista, daqueles poucos que ao longo da odisséia humana atravessaram a existência como um cometa. Como um cometa, Raul foi consumido por sua arte, frustrou e magoou muitos dos que atravessaram seu caminho e, ao fim, legou para a malta algo muito maior do que si mesmo.

Mas a história da lenda é também a história dos que com ele conviveram, e do lugar onde viveram, um Brasil sempre dominado pelo provincianismo e pelo colonialismo mental.

Raul começou sua história na Bahia no fim dos anos 50, onde ser “roqueiro” era quase uma aberração. A dificuldade começava na aquisição dos discos, que simplesmente não eram vendidos por lá. O adolescente Raul, como todo jovem, tinha sonhos de fama, fortuna e grandeza, os quais encontravam seu ícone em Elvis Presley, ídolo e modelo de Raul no início de sua vida.

Mas não demorou muito para Raul começar a misturar o rock’n roll de seus ídolos do além-mar com o baião do ídolo local, Luiz Gonzaga. Depois vieram outros ritmos. Raul misturou rock, baião, tango, country, rap (ou “pré-rap”) e outros ritmos em um país até hoje dividido entre copiar o rock estrangeiro e “honrar as raízes” da música tupiniquim. Raul não estava nem aí; para ele, rock e baião eram iguais.

Veio Paulo Coelho e, com ele, o misticismo, o “satanismo” e a piração. Raul ganhou dinheiro, cheirou e bebeu tudo, foi perseguido pela censura, saiu do Brasil, voltou na crista da onda de “Gita” e se separou do “mago”.

Veio Cláudio Roberto e mais grandes músicas. A piração então começou a cobrar seu preço e Raul começou a ser esquecido. Afastou-se dos palcos e afundou na bebedeira e no pó.

Por fim veio o polêmico Marcelo Nova, um último suspiro e… a morte.

Depoimento após depoimento, o filme conta a história de um artista pioneiro, que soube se reinventar várias vezes e que não se prendeu a nada (nem a ninguém) além da música. Raul manteve um estilo único e disse o que quis, não se deixando limitar por nenhum tema, ritmo, ideologia ou crença religiosa. Mudou e acompanhou um Brasil em mudança.

Mas Raul pagou um preço pessoal alto por sua “independência”. Sua vida foi compartilhada com seis mulheres. Com exceção da primeira, todas aparecem no filme e falam desse cometa incandescente que, no fundo, parece não se ter importado com nada além da arte. Infelizmente, para ele, parece que nenhuma delas concordava com Nélson Gonçalves (em “A volta do boêmio”) e, umas antes, outras depois, depois de um tempo todas se cansaram de ser relegadas ao segundo plano. Raul também não conviveu verdadeiramente com nenhuma de suas 3 filhas.

Para algumas pessoas, a transiência de Raul pode parecer oportunista. Pode-se achar que ele mudou conforme a conveniência e usou as pessoas ao longo do caminho. É uma interpretação. Não é a minha. Suas idas-e-vindas nada tiveram que ver com conveniência, moda ou momento. Ele foi um precursor, não um “maria-vai-com-as-outras”. Suas experimentações rítmicas até hoje são originais e têm um “quê” revolucionário, e muitas de suas letras contêm “verdades” atemporais (“verdade” vai entre aspas porque o próprio Raul cantou, com um toque de genialidade, que “a verdade do Universo é a prestação que vai vencer”). Nada disso me parece oportunismo.

O documentário, basicamente uma sequência de entrevistas atuais intercalada com vídeos do próprio Raul, é obviamente permeado por várias de suas músicas, sempre muito bem contextualizadas. Os vídeos do próprio Raul proporcionam alguns momentos bem engraçados ao documentário e revelam uma ironia fina e uma sagacidade que somente uma mente afiada pode patrocinar. Uma tarde com Raul devia ser uma experiência no mínimo enriquecedora. Zé Ramalho, que no filme não diz nada, uma vez definiu uns dias que passou com Raul como um divisor de águas em sua vida.

Aliás, uma das coisas mais interessantes do filme é notar que apesar da relativa “tragédia pessoal” da vida de Raul, à exceção de sua primeira mulher todos falam dele com aquela condescendência carinhosa franqueada apenas àqueles que transcendem, e muito, a mediocridade (atitude imortalizada no personagem “Schindler” de “Minha amada imortal”).

Não deixa de ser divertido também acompanhar a briga de egos do legado da lenda. Quem foi seu maior parceiro? Qual foi a mulher que ele mais amou? (Essa última “disputa” é das mais patéticas e, por isso mesmo, das mais divertidas.)

Enfim, o filme mostra um homem que viveu um sonho, um sonho que o consumiu e que consumiu especialmente aqueles que mais se aproximaram dele. Mas também mostra um sonho que nos legou a todos algo duradouro. Já se vão quase 23 anos da morte de Raul, mais de 35 do lançamento de seus maiores sucessos, e suas músicas continuam sendo tocadas, ouvidas e, principalmente, continuam fazendo pensar (algo que as músicas atuais sequer se propõem a fazer).

Para mim Raul não teve escolha. Como disse Pedro Bial no filme, “o Raul não pensava; ele era um vômito; aquilo vinha de dentro dele”. A arte lhe tomou a vida emprestada e fez dele a sua voz. A arte lhe deu a vida e depois lha tirou.

Também pode ser que nada disso seja verdade. Pode ser que Raul tenha sido um enorme enrolador, um embuste, apenas mais um músico que passou pelas vitrolas brasileiras.

Com o perdão da péssima referência, fico com Paulo Coelho: “Lenda não tem história. Lenda é lenda. E o Raul é uma lenda.”.