Guia da culinária OGRA

guiaCaros,

tive a felicidade de encontrar este livro essa semana e não resisti: adquiri um exemplar para mim e mais dois para presentear.

Trata-se de um guia MUITO útil, não só aos paulistanos, mas principalmente, aos “forasteiros” na cidade. Bem que ele já poderia existir à época em que morei na cidade, seria meu guia de sobrevivência gastronômica no local.

Quem mora ou conhece Sampa sabe o quanto a cidade pode tornar-se cara e confusa. Somente quem mora lá há muitos anos conhece bem os verdadeiros “achados” da gastronomia, que na minha opinião consiste em um restaurante, não necessariamente chic, que sirva comida boa, a preço justo e em quantidade suficiente para matar minha fome de leão (acreditem, sou mulherzinha mas me alimento como um peão de obra).

Pois bem. Para muitos paulistanos acostumados com as opções vastas que a cidade tem a oferecer, pode parecer um pouco manjado, por já conhecerem a maioria dos locais do guia. Mas creiam: quando não se é “nativo”, conhecer tais lugares é missão quase impossível, até mesmo porque a maioria destes restaurantes não chamam a atenção e estão localizados nos lugares menos prováveis.

Há, logo no início do livro, o que o autor chama de “Dez mandamentos dos templos ogros”. Esses mandamentos foram decisivos na minha compra, pois eu concordo (muito) com todos eles. Uns dos que eu mais gostei foram:

1. Não pode ter nome começando por “Chez” ou terminando por “Bistrô”; 3. Não pode ter “chef ” e sim “cozinheiro” e 6. Não pode ter “menu” e sim “cardápio” e o mais importante de todos: A comida precisa ocupar 85% da área total do prato.

Todos os mandamentos são ótimos, mas não vou ficar aqui compilando o livro. Comprem. (rs)

Agora que já possuo meu exemplar, certamente conhecerei alguns dos lugares indicados, em especial os localizados no bairro Liberdade e no velho centro da cidade. Isso que eu chamo de turismo. Melhor que isso só um livro com mais opções (incluindo botecos tradicionais) e índice remissivo (auge da preguiça do ser humano). Acabo de terminar a leitura e constatei que há sim um índice remissivo por região. Portanto, reinvidico apenas uma lista de botecos (maior do que a já existente na seção “petiscos”)

Seguem as informações do livro:

Título: Guia da Culinária OGRA. 195 lugares para comer até cair (em São Paulo)

Autor: André Barcinski

Editora: Planeta

Média de preço: R$ 23,00 (vinte e três reais).

Semana Cinema

Aproveitando as opções que a locadora aqui perto de casa tem a oferecer (e não são poucas), aluguei um bocado de filmes e passo a fazer um breve comentário sobre cada um, pois certamente valem a pena ser vistos.

“Cópia Fiel” foi uma das opções porque na época em que estava em cartaz foi alvo de duras críticas por parte de alguns amigos que foram ao cinema assisti-lo. Resolvi tirar minhas próprias conclusões e acho que compreendo o motivo das críticas. Realmente o filme não é dos mais animados. É um drama “daqueles”, que no final você diz pra si mesmo “Puta vida escrota do caralh*”. No entanto, apesar da falta de “animação”, o filme é belo e tem diálogos muito interessantes, que nos levam à reflexão. Devo dizer que gostei muito, muito mesmo desse filme. Ele foi me conquistando aos poucos.

O estilo de filmagem é como um “Antes do amanhecer”, pois o filme inteiro se resume a diálogos entre um homem e uma mulher (interpretada pela Juliette Binoche). Só nisso se parece com Antes do amanhecer, pois enquanto no desenrolar deste surge uma paixão avassaladora entre os personagens, naquele há um papo complexo, que você até demora um pouco a entender a real situação dos personagens.

É difícil fazer mais comentários sobre o filme sem revelar o segredo por trás da história, por isso vou me ater somente a isso… Mas digo: qualquer pessoa um dia passou ou passará pela situação, infelizmente.

“A banda” é um filme israelense que conta a história da Orquestra da Polícia de Alexandria visitando Israel para fazer uma apresentação. No entanto, a banda não consegue chegar a cidade correta, tendo que passar a noite na cidade “errada” com a ajuda de alguns moradores. A chegada da banda muda muito a rotina do lugar e de seus moradores. Nota-se que a mudança é geral, inclusive dos músicos. Não é meu estilo de filme favorito, mas conheço pessoas que adoraram, motivo pelo qual resolvi fazer esse comentário.

“Conselho é como cu, cada um tem o seu” (A guerra dos botões)

“A Guerra dos Botões” (La Guerre des boutons) é, como diria um amigo meu “um filme para sair feiz do cinema”. Quem estiver cansado de drama, pode alugar… É muito bonitinho e alegre.. vale muuuito a pena. Dois grupos rivais, os Velrans e Longeverne travam guerras o filme inteiro. É muito bonitinho de se ver a cumplicidade entre os amigos e as brincadeiras que tanto nos remete a infância.

O Lobo do Mar – Jack London

Ganhei esse livro de sabe-lá-Deus-quem, 10 anos atrás. Sim, o pobre coitado ficou 10 anos na prateleira aguardando uma chance de ser lido. A prova de tanto tempo de espera estava estampada na etiqueta da livraria Sodiler em sua folha de rosto.

Antes de iniciar a leitura, fiz uma rápida busca sobre o autor, Jack London. Eu achei estranho esse autor não gozar de tanto prestígio no Brasil, quando comparado com o que possui lá fora (talvez seja ignorância minha mesmo). Até porque, se vocês observarem bem, qualquer coleção pocket possui um livro dele.

Jack London tem suas produções influenciadas por grandes nomes tais como Darwin, Nietzsche e Marx. Confesso que nunca li suas obras (não me recriminem por admitir minha alienação), meus conhecimentos sobre eles são de sala de aula mesmo. Não digo que nunca o farei, mas sempre preferi ler os influenciados a ler os influenciáveis. Acho um pouco fatigante ler a filosofia no duro, sabe? Talvez eu não esteja preparada ou talvez eu simplesmente não esteja a fim mesmo. Esta foi a razão que me levou a ler “Quando Nietzsche chorou” e “A cura de Schopenhauer”. Talvez isso se aplique, inclusive, aos romances históricos (pessoalmente acho muito mais agradável ler um romance histórico a ler um livro do Hobsbawn, por exemplo).

Dito isto, caso não concordem com algo que eu diga, fiquem a vontade para corrigir ou opinar. Sou bastante razoável nesse sentido.

O livro conta a “aventura” de Humphrey Van Weyden, um homem que foi resgatado por uma escuna chamada “Ghost” após ter sido vítima de um naufrágio.

A “Ghost” tem como capitão um homem chamado por seus subordinados de “Lobo Larsen”, de características escandinavas que, na minha opinião, a despeito de sua crueldade, é quem dá alma ao livro, e foi o personagem que me fez terminar a leitura.

Esse livro é escrito em primeira pessoa, como um diário de memórias de Humphrey. Assim, é possível entender como esse personagem se sentia em relação a todos os acontecimentos ocorridos na embarcação.

Eu achei muita coragem do autor escrever tantas páginas e tantos acontecimentos em um ambiente tão limitado como é uma embarcação de pesca/caça (às focas, no caso). Mas depois, pensando melhor, percebi que essa embarcação poderia ser qualquer outro lugar… sei lá, um quartel, uma empresa, etc. O que quero dizer, é que essa embarcação significava, para mim, uma análise micro da sociedade, entende?

Logo no início da leitura, li um diálogo com o qual me identifiquei muito e dizia assim:

“- Quem o sustenta? Insistiu. Quem conquistou essa renda? Seu pai, com certeza, e você vive sobre as pernas dum homem já falecido. Nunca obteve nada pelo esforço próprio. Não sabe cavar a vida, se o largarem só”.

Lobo Larsen disse isso a Van Weyden, mas acho que a mim também. Todos já passamos por essa situação na vida, em que deixamos de ser sustentados para, enfim, andarmos com as nossas próprias pernas. É uma transição penosa para os idealistas. Antes de iniciar essa resenha, imaginei que muitos são como Humphrey no início do livro: sempre se limitaram ao conhecimento teórico, esquecendo da prática, da ação em si. Por mais que ao ler um livro adquiramos conhecimento, nenhuma sensação é mais satisfatória quanto a de “botar a mão da massa”. Eu ainda estou conquistando isso.

Larsen, apesar de gostar da erudição, dava mais valor a ação, a atitude, a conquistar com o próprio suor, ao invés de simplesmente receber algo pronto e acabado. Acho que esse foi o maior aprendizado de Humphrey no decorrer do livro.

Lobo Larsen comandava com pulso firme sua tripulação, chegando a ser cruel na maioria das vezes. Claro que a parte cruel da coisa, não era estritamente necessária, isso se dava a sua forma de pensar nas pessoas como coisas necessárias para um fim específico e descartáveis em certa altura. Mas, eu acho que essa hierarquia é necessária para o funcionamento da vida em sociedade.

O capitão da Ghost exercia sua superioridade não só com sua força física inabalável (Humphrey o descrevia como um Deus, um ser desprovido de defeitos físicos, sobre humano, o mais forte), mas também com uma capacidade peculiar de manipular mentalmente seus subordinados. Às vezes eu encarava a Ghost como um quarto branco de tortura: ninguém, após certo período de tempo dentro dela, se mantinha em estado de sã consciência. Era um ambiente hostil, onde a mais frágil das criaturas se tornava um animal para lutar pela própria vida. Os personagens claramente mudam no decorrer da narrativa, influenciados pelo ambiente insalubre e pelas atitudes de seu capitão.

Esse ambiente onde só os mais fortes sobrevivem pode ser identificado na forma de pensar de Larsen:

“Penso que a vida é uma confusão, respondeu ele de pronto. A vida é como o fermento, uma levedura que se move por um minuto, uma hora, um ano, um século, um milênio, mas que por fim terá paralisados os movimentos. Para manter-se em movimento, o grande come o pequeno. Para manter-se forte o forte come o fraco. O que tem sorte prolonga o seu movimento por mais tempo – eis tudo”.

Os valores éticos não eram os do “mundo civilizado” de onde Van Weyden provinha. A Ghost tinha seus próprios valores éticos e morais:

– Por que não atira? indagou ele. Pigarreei para limpar a garganta. – Hump, disse Larsen com lentidão, você não atira porque não pode atirar. Não é medo. É impotência. A sua moralidade convencional fez-se mais forte que os seus instintos. Não passa dum escravo das ideias assentes na terra onde viveu e dos livros que leu. O código dessa terra foi embutido no seu cérebro desde a meninice, e a despeito da sua filosofia e do que aprendeu comigo nesta Ghost, esse código não o deixará matar a um homem desarmado que não resiste”.

Afora isso, também sofri muito com o mar. Sério. Eu não aguentava mais água… Era tanta vela, tanta chuva, tanto frio, tempestades, ondas… nossa, cheguei a ficar mareada em alguns momentos (acho que me recordei da péssima experiência que tive em um catamarã). Isso sem contar na caça às focas, pobrezinhas… Eu fiquei horrorizada com a crueldade de todos, pude sentir o cheiro de sangue em alguns momentos. Acho que esse foi o primeiro livro a me causar tais sensações físicas.

Enfim, resisti ao “aguaceiro” e percebi a importância da ação e da satisfação que nos dá ver um trabalho realizado, erguido, completo, concretizado.

Há filmes baseados no livro, aos que não querem se dar o trabalho de ler:

Medianeras: sobre a fragilidade dos laços humanos.

“A internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida”

Pronto. Finalmente respirei fundo e decidi escrever um texto para o blog. Como havia mencionado no primeiro post, achei que o filme “Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual” seria tema de uma postagem mais extensa. Pois bem. Aí vai.

Apesar de ter ficado em cartaz por muitas semanas em São Paulo, deixei de assistir a esse filme por um simples motivo: o título não me agradou. Culpa: tradução.

Eu queria saber quem é a criatura que tem a péssima ideia de acrescentar “Buenos Aires na Era do amor Virtual” ao título de um filme que chama-se, apenas, “Medianeras” no original. Falar em Buenos Aires na era do amor virtual não ajudou a entender o que raios significa Medianeras. O pior foi que o filme liderou o ranking dos melhores da Vejinha, fato que contribuiu para a minha resistência, uma vez que eu raramente concordo com as notas atribuídas aos filmes (até hoje sou ressentida porque a crítica maluca não curtiu Cisne Negro.. só perdoei depois que deu 4 estrelas para “Minhas Tardes com Margueritte”).

Ainda bem que tenho amigos com alto poder de persuasão: fui convencida a assistir ao filme. Que bom!!!! Foi uma grata surpresa.

O filme não é ambicioso ou arrogante, o que pra mim é um ponto super positivo. Nem sempre estou disposta a assistir filmes com profundos questionamentos. Acho que fiquei um pouco traumatizada após assistir a colação do Almodóvar. Apesar de ser um cineasta consagrado, os filmes dele causam cansaço em mim.

Antes mesmo de começar a história, Medianeras já me atraiu pela trilha sonora. A primeira música a ser ouvida foi “Ain’t no moutain high enough” – Marvin Gaye e Tammi Terrel. Eu ADORO Marvin Gaye… e ADORO essa música… além de bonitinha é um clááááááássico. Portanto, não poderia deixar de postá-la, para “ornar” o texto.

Medianeras trata de uma questão muito recorrente no mundo moderno: a fragilidade das relações humanas.Antes mesmo de começar a história (parte II), um dos personagens principais faz uma análise urbanística de Buenos Aires (momento em que explica o significado da palavra Medianeras), para ao final, estabelecer um paralelo entre essa desorganização urbana e as relações humanas. Achei sensacional.

Dois são os personagens principais, que não se conhecem, mas que passaram por situações semelhantes, ligadas a relacionamentos passados.

Outro fator relevante a ser mencionado é que neste filme não temos a atuação do Ricardo Darín. Nada contra o ator, ao contrário, gosto muito dele, mas às vezes tenho a impressão de que ele é o único ator argentino existente.

Como foi dito, os protagonistas tem certas coisas em comum, a além de terem vivido relacionamentos duradouros, ambos também sofrem de males que atingem as pessoas no mundo moderno: são antissociais, têm fobias, dificuldade de integrar grupos, são individualistas e introspectivos. Também sofrem depressão, sentem-se solitários quando cercados por multidões, têm crises existenciais. Sentem-se irrelevantes diante do mundo. Parece exagerado, mas acho que isso é muito recorrente hoje em dia.

Talvez nem todos que leiam esse blog se identifiquem com este tema, mas acho que o filme não se restringe apenas a tratar de relacionamentos virtuais, até porque o casal não se conhece por meio da internet, mas da incapacidade das pessoas se relacionarem no mundo moderno. Como as relações acontecem e terminam repentinamente.

“Há mais de dez anos sentei em frente ao computador e tenho a sensação de que nunca mais levantei”

Muitos outros pontos se mostraram interessantes no filme, como uma constatação da personagem feminina sobre seu último relacionamento: X megabytes de fotos tiradas ao longo de 4 anos de relacionamento sendo deletadas definitivamente em menos de 5 segundos.

“Relacionamentos são como combos do MC Donalds: na foto são grandes e suculentos mas na realidade não são tudo isso. Eu sempre me arrependo ao abrir um pacote de big mac”.

Essa facilidade de se desprender virtualmente dá uma falsa sensação de independência e força nas pessoas. No entanto, na vida real, não esquecemos e não nos desapegamos com tanta facilidade.

É muito paradoxal possuir tantas ferramentas de comunicação ao nosso dispor e ao mesmo tempo a comunicação ser tão falha e escassa. O aumento das ferramentas de comunicação é inversamente proporcional à capacidade das pessoas se comunicarem e se compreenderem.

Pensamento sobre esse assunto me ocorreu Zygmunt Bauman. Acho que o filme tem tudo a ver com o que ele escreve:

“Elas são ‘relações virtuais’. Ao contrário dos relacionamentos antiquados (para não falar daqueles com ‘compromisso’, muito menos dos compromissos a longo prazo), elas parecem feitas sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as ‘possibilidades românticas’ (e não apenas românticas) surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de “ser a mais satisfatória e a mais completa”. Diferentemente dos “relacionamentos reais”, é fácil entrar e sair dos ‘relacionamentos virtuais’. Em comparação com a ‘coisa autêntica’, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação eletrônica: ‘Sempre se pode apertar a tecla de deletar’”.

“Em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados. Como resultado, o conjunto de experiências às quais nos referimos com a palavra amor expandiu-se muito. Noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de ‘fazer amor’”.

Trechos retirados de “Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos” – Editora Zahar

Talvez a lição que fique disso tudo seja um despertar para essa realidade e não permitir que sejamos dominados pela tecnologia. A evolução digital é uma ótima ferramenta, desde que seja utilizada com parcimônia e ao nosso favor.