Guia da culinária OGRA

guiaCaros,

tive a felicidade de encontrar este livro essa semana e não resisti: adquiri um exemplar para mim e mais dois para presentear.

Trata-se de um guia MUITO útil, não só aos paulistanos, mas principalmente, aos “forasteiros” na cidade. Bem que ele já poderia existir à época em que morei na cidade, seria meu guia de sobrevivência gastronômica no local.

Quem mora ou conhece Sampa sabe o quanto a cidade pode tornar-se cara e confusa. Somente quem mora lá há muitos anos conhece bem os verdadeiros “achados” da gastronomia, que na minha opinião consiste em um restaurante, não necessariamente chic, que sirva comida boa, a preço justo e em quantidade suficiente para matar minha fome de leão (acreditem, sou mulherzinha mas me alimento como um peão de obra).

Pois bem. Para muitos paulistanos acostumados com as opções vastas que a cidade tem a oferecer, pode parecer um pouco manjado, por já conhecerem a maioria dos locais do guia. Mas creiam: quando não se é “nativo”, conhecer tais lugares é missão quase impossível, até mesmo porque a maioria destes restaurantes não chamam a atenção e estão localizados nos lugares menos prováveis.

Há, logo no início do livro, o que o autor chama de “Dez mandamentos dos templos ogros”. Esses mandamentos foram decisivos na minha compra, pois eu concordo (muito) com todos eles. Uns dos que eu mais gostei foram:

1. Não pode ter nome começando por “Chez” ou terminando por “Bistrô”; 3. Não pode ter “chef ” e sim “cozinheiro” e 6. Não pode ter “menu” e sim “cardápio” e o mais importante de todos: A comida precisa ocupar 85% da área total do prato.

Todos os mandamentos são ótimos, mas não vou ficar aqui compilando o livro. Comprem. (rs)

Agora que já possuo meu exemplar, certamente conhecerei alguns dos lugares indicados, em especial os localizados no bairro Liberdade e no velho centro da cidade. Isso que eu chamo de turismo. Melhor que isso só um livro com mais opções (incluindo botecos tradicionais) e índice remissivo (auge da preguiça do ser humano). Acabo de terminar a leitura e constatei que há sim um índice remissivo por região. Portanto, reinvidico apenas uma lista de botecos (maior do que a já existente na seção “petiscos”)

Seguem as informações do livro:

Título: Guia da Culinária OGRA. 195 lugares para comer até cair (em São Paulo)

Autor: André Barcinski

Editora: Planeta

Média de preço: R$ 23,00 (vinte e três reais).

O Lobo do Mar – Jack London

Ganhei esse livro de sabe-lá-Deus-quem, 10 anos atrás. Sim, o pobre coitado ficou 10 anos na prateleira aguardando uma chance de ser lido. A prova de tanto tempo de espera estava estampada na etiqueta da livraria Sodiler em sua folha de rosto.

Antes de iniciar a leitura, fiz uma rápida busca sobre o autor, Jack London. Eu achei estranho esse autor não gozar de tanto prestígio no Brasil, quando comparado com o que possui lá fora (talvez seja ignorância minha mesmo). Até porque, se vocês observarem bem, qualquer coleção pocket possui um livro dele.

Jack London tem suas produções influenciadas por grandes nomes tais como Darwin, Nietzsche e Marx. Confesso que nunca li suas obras (não me recriminem por admitir minha alienação), meus conhecimentos sobre eles são de sala de aula mesmo. Não digo que nunca o farei, mas sempre preferi ler os influenciados a ler os influenciáveis. Acho um pouco fatigante ler a filosofia no duro, sabe? Talvez eu não esteja preparada ou talvez eu simplesmente não esteja a fim mesmo. Esta foi a razão que me levou a ler “Quando Nietzsche chorou” e “A cura de Schopenhauer”. Talvez isso se aplique, inclusive, aos romances históricos (pessoalmente acho muito mais agradável ler um romance histórico a ler um livro do Hobsbawn, por exemplo).

Dito isto, caso não concordem com algo que eu diga, fiquem a vontade para corrigir ou opinar. Sou bastante razoável nesse sentido.

O livro conta a “aventura” de Humphrey Van Weyden, um homem que foi resgatado por uma escuna chamada “Ghost” após ter sido vítima de um naufrágio.

A “Ghost” tem como capitão um homem chamado por seus subordinados de “Lobo Larsen”, de características escandinavas que, na minha opinião, a despeito de sua crueldade, é quem dá alma ao livro, e foi o personagem que me fez terminar a leitura.

Esse livro é escrito em primeira pessoa, como um diário de memórias de Humphrey. Assim, é possível entender como esse personagem se sentia em relação a todos os acontecimentos ocorridos na embarcação.

Eu achei muita coragem do autor escrever tantas páginas e tantos acontecimentos em um ambiente tão limitado como é uma embarcação de pesca/caça (às focas, no caso). Mas depois, pensando melhor, percebi que essa embarcação poderia ser qualquer outro lugar… sei lá, um quartel, uma empresa, etc. O que quero dizer, é que essa embarcação significava, para mim, uma análise micro da sociedade, entende?

Logo no início da leitura, li um diálogo com o qual me identifiquei muito e dizia assim:

“- Quem o sustenta? Insistiu. Quem conquistou essa renda? Seu pai, com certeza, e você vive sobre as pernas dum homem já falecido. Nunca obteve nada pelo esforço próprio. Não sabe cavar a vida, se o largarem só”.

Lobo Larsen disse isso a Van Weyden, mas acho que a mim também. Todos já passamos por essa situação na vida, em que deixamos de ser sustentados para, enfim, andarmos com as nossas próprias pernas. É uma transição penosa para os idealistas. Antes de iniciar essa resenha, imaginei que muitos são como Humphrey no início do livro: sempre se limitaram ao conhecimento teórico, esquecendo da prática, da ação em si. Por mais que ao ler um livro adquiramos conhecimento, nenhuma sensação é mais satisfatória quanto a de “botar a mão da massa”. Eu ainda estou conquistando isso.

Larsen, apesar de gostar da erudição, dava mais valor a ação, a atitude, a conquistar com o próprio suor, ao invés de simplesmente receber algo pronto e acabado. Acho que esse foi o maior aprendizado de Humphrey no decorrer do livro.

Lobo Larsen comandava com pulso firme sua tripulação, chegando a ser cruel na maioria das vezes. Claro que a parte cruel da coisa, não era estritamente necessária, isso se dava a sua forma de pensar nas pessoas como coisas necessárias para um fim específico e descartáveis em certa altura. Mas, eu acho que essa hierarquia é necessária para o funcionamento da vida em sociedade.

O capitão da Ghost exercia sua superioridade não só com sua força física inabalável (Humphrey o descrevia como um Deus, um ser desprovido de defeitos físicos, sobre humano, o mais forte), mas também com uma capacidade peculiar de manipular mentalmente seus subordinados. Às vezes eu encarava a Ghost como um quarto branco de tortura: ninguém, após certo período de tempo dentro dela, se mantinha em estado de sã consciência. Era um ambiente hostil, onde a mais frágil das criaturas se tornava um animal para lutar pela própria vida. Os personagens claramente mudam no decorrer da narrativa, influenciados pelo ambiente insalubre e pelas atitudes de seu capitão.

Esse ambiente onde só os mais fortes sobrevivem pode ser identificado na forma de pensar de Larsen:

“Penso que a vida é uma confusão, respondeu ele de pronto. A vida é como o fermento, uma levedura que se move por um minuto, uma hora, um ano, um século, um milênio, mas que por fim terá paralisados os movimentos. Para manter-se em movimento, o grande come o pequeno. Para manter-se forte o forte come o fraco. O que tem sorte prolonga o seu movimento por mais tempo – eis tudo”.

Os valores éticos não eram os do “mundo civilizado” de onde Van Weyden provinha. A Ghost tinha seus próprios valores éticos e morais:

– Por que não atira? indagou ele. Pigarreei para limpar a garganta. – Hump, disse Larsen com lentidão, você não atira porque não pode atirar. Não é medo. É impotência. A sua moralidade convencional fez-se mais forte que os seus instintos. Não passa dum escravo das ideias assentes na terra onde viveu e dos livros que leu. O código dessa terra foi embutido no seu cérebro desde a meninice, e a despeito da sua filosofia e do que aprendeu comigo nesta Ghost, esse código não o deixará matar a um homem desarmado que não resiste”.

Afora isso, também sofri muito com o mar. Sério. Eu não aguentava mais água… Era tanta vela, tanta chuva, tanto frio, tempestades, ondas… nossa, cheguei a ficar mareada em alguns momentos (acho que me recordei da péssima experiência que tive em um catamarã). Isso sem contar na caça às focas, pobrezinhas… Eu fiquei horrorizada com a crueldade de todos, pude sentir o cheiro de sangue em alguns momentos. Acho que esse foi o primeiro livro a me causar tais sensações físicas.

Enfim, resisti ao “aguaceiro” e percebi a importância da ação e da satisfação que nos dá ver um trabalho realizado, erguido, completo, concretizado.

Há filmes baseados no livro, aos que não querem se dar o trabalho de ler:

Medianeras: sobre a fragilidade dos laços humanos.

“A internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida”

Pronto. Finalmente respirei fundo e decidi escrever um texto para o blog. Como havia mencionado no primeiro post, achei que o filme “Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual” seria tema de uma postagem mais extensa. Pois bem. Aí vai.

Apesar de ter ficado em cartaz por muitas semanas em São Paulo, deixei de assistir a esse filme por um simples motivo: o título não me agradou. Culpa: tradução.

Eu queria saber quem é a criatura que tem a péssima ideia de acrescentar “Buenos Aires na Era do amor Virtual” ao título de um filme que chama-se, apenas, “Medianeras” no original. Falar em Buenos Aires na era do amor virtual não ajudou a entender o que raios significa Medianeras. O pior foi que o filme liderou o ranking dos melhores da Vejinha, fato que contribuiu para a minha resistência, uma vez que eu raramente concordo com as notas atribuídas aos filmes (até hoje sou ressentida porque a crítica maluca não curtiu Cisne Negro.. só perdoei depois que deu 4 estrelas para “Minhas Tardes com Margueritte”).

Ainda bem que tenho amigos com alto poder de persuasão: fui convencida a assistir ao filme. Que bom!!!! Foi uma grata surpresa.

O filme não é ambicioso ou arrogante, o que pra mim é um ponto super positivo. Nem sempre estou disposta a assistir filmes com profundos questionamentos. Acho que fiquei um pouco traumatizada após assistir a colação do Almodóvar. Apesar de ser um cineasta consagrado, os filmes dele causam cansaço em mim.

Antes mesmo de começar a história, Medianeras já me atraiu pela trilha sonora. A primeira música a ser ouvida foi “Ain’t no moutain high enough” – Marvin Gaye e Tammi Terrel. Eu ADORO Marvin Gaye… e ADORO essa música… além de bonitinha é um clááááááássico. Portanto, não poderia deixar de postá-la, para “ornar” o texto.

Medianeras trata de uma questão muito recorrente no mundo moderno: a fragilidade das relações humanas.Antes mesmo de começar a história (parte II), um dos personagens principais faz uma análise urbanística de Buenos Aires (momento em que explica o significado da palavra Medianeras), para ao final, estabelecer um paralelo entre essa desorganização urbana e as relações humanas. Achei sensacional.

Dois são os personagens principais, que não se conhecem, mas que passaram por situações semelhantes, ligadas a relacionamentos passados.

Outro fator relevante a ser mencionado é que neste filme não temos a atuação do Ricardo Darín. Nada contra o ator, ao contrário, gosto muito dele, mas às vezes tenho a impressão de que ele é o único ator argentino existente.

Como foi dito, os protagonistas tem certas coisas em comum, a além de terem vivido relacionamentos duradouros, ambos também sofrem de males que atingem as pessoas no mundo moderno: são antissociais, têm fobias, dificuldade de integrar grupos, são individualistas e introspectivos. Também sofrem depressão, sentem-se solitários quando cercados por multidões, têm crises existenciais. Sentem-se irrelevantes diante do mundo. Parece exagerado, mas acho que isso é muito recorrente hoje em dia.

Talvez nem todos que leiam esse blog se identifiquem com este tema, mas acho que o filme não se restringe apenas a tratar de relacionamentos virtuais, até porque o casal não se conhece por meio da internet, mas da incapacidade das pessoas se relacionarem no mundo moderno. Como as relações acontecem e terminam repentinamente.

“Há mais de dez anos sentei em frente ao computador e tenho a sensação de que nunca mais levantei”

Muitos outros pontos se mostraram interessantes no filme, como uma constatação da personagem feminina sobre seu último relacionamento: X megabytes de fotos tiradas ao longo de 4 anos de relacionamento sendo deletadas definitivamente em menos de 5 segundos.

“Relacionamentos são como combos do MC Donalds: na foto são grandes e suculentos mas na realidade não são tudo isso. Eu sempre me arrependo ao abrir um pacote de big mac”.

Essa facilidade de se desprender virtualmente dá uma falsa sensação de independência e força nas pessoas. No entanto, na vida real, não esquecemos e não nos desapegamos com tanta facilidade.

É muito paradoxal possuir tantas ferramentas de comunicação ao nosso dispor e ao mesmo tempo a comunicação ser tão falha e escassa. O aumento das ferramentas de comunicação é inversamente proporcional à capacidade das pessoas se comunicarem e se compreenderem.

Pensamento sobre esse assunto me ocorreu Zygmunt Bauman. Acho que o filme tem tudo a ver com o que ele escreve:

“Elas são ‘relações virtuais’. Ao contrário dos relacionamentos antiquados (para não falar daqueles com ‘compromisso’, muito menos dos compromissos a longo prazo), elas parecem feitas sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as ‘possibilidades românticas’ (e não apenas românticas) surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de “ser a mais satisfatória e a mais completa”. Diferentemente dos “relacionamentos reais”, é fácil entrar e sair dos ‘relacionamentos virtuais’. Em comparação com a ‘coisa autêntica’, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação eletrônica: ‘Sempre se pode apertar a tecla de deletar’”.

“Em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados. Como resultado, o conjunto de experiências às quais nos referimos com a palavra amor expandiu-se muito. Noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de ‘fazer amor’”.

Trechos retirados de “Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos” – Editora Zahar

Talvez a lição que fique disso tudo seja um despertar para essa realidade e não permitir que sejamos dominados pela tecnologia. A evolução digital é uma ótima ferramenta, desde que seja utilizada com parcimônia e ao nosso favor.

Tchekhov e o imaginário do real

Rodolfo Jacarandá

“Começara a oprimi-lo um desejo intenso de partilhar com alguém suas recordações. Mas, em casa, não se podia falar de seu amor e, fora, não havia com quem. Não ia fazê-lo com os moradores do prédio ou no banco em que trabalhava. Além disso, falar do quê? Amara ele então? Havia, por ventura, algo belo, poético, edificante ou simplesmente interessante, em suas relações com Ana Sierguéievna? Tornava-se necessário conversar, de modo indefinido, sobre amor, sobre mulheres, e ninguém adivinhava do que se tratava, e somente sua mulher movia as sobrancelhas escuras, dizendo:

_ Não fica nada bem a você, Dimítri, o papel de fátuo.”

Anton Tchekhov – A dama do cachorrinho

O respeito pela realidade bruta, vivida, cotidiana é algo tardio na arte.

Quando observamos uma pintura medieval que representa uma família fazendo um piquenique, por mais correlata e perfeita que ela seja, sempre há um toque angelical ou ideal, lírico ou romântico, que a torne uma projeção, há sempre algo que a coloque acima de qualquer cena que possa mesmo ter acontecido.

Nasceu tarde o desejo de mostrar a vida como ela é.

Isso talvez por que sempre tivemos uma certa aversão pela vida real, aquela que cada um de nós efetivamente vive. Não é difícil conceber um gênio medieval chamado a pintar um quadro e se vendo forçado a traçar em linhas galantes e cores generosas e harmoniosas aquilo que seus olhos percebiam como incolor, desengonçado e pouco interessante.

Há uma angústia existencial característica da humanidade que se revela no esforço por ser mais do que é. A arte parece ter servido a esse propósito, por muito tempo.

Por motivos como esse, para muitos pensadores, a arte foi, por bastante tempo, o lugar da ilusão, do falso, da enganação mesmo dos sentidos e da razão.

Nunca fez muito sentido gastar as cores infinitas da arte com as limitações dos pequenos cercados dentro dos quais nós sempre vivemos, despender o melhor das louvações linguísticas com a pobreza das nossas excitações ordinárias, arrancar às notas as melhores harmonias para cantar a infelicidade de quem não consegue atrair a atenção sequer daqueles com quem divide o mesmo teto.

Para quem sempre acreditou que a arte tem o dever de elevar e sublimar a pequenez humana, para quem sempre acreditou que a arte teria algum dever, como se fosse um prisioneiro de nossa necessidade de mentir para viver, a leitura da pequena história “A dama do cachorrinho” de Anton Tchekhov serviu ao propósito de provar porque mentir ou fingir é fundamental.

Mas a carreira do conto do genial mestre russo segue na direção contrária. Tchekhov é considerado o pai do realismo em literatura. De vez em quando, algum crítico brasileiro se esforça por demonstrar a grandeza de Machado de Assis afirmando: “só não é melhor que Tchekhov”.

A mente de Tchekhov produziu uma inflexão profunda na arte moderna: não apenas nos mostrou que estávamos equivocados ao desprezar a dura realidade dos fatos como material sagrado da arte. Trabalhando esse material, o autor russo nos ensinou muito sobre como acessar e conhecer a volúvel natureza humana.

Longe de entalhar tipos e caracteres gerais, longe de sociologizar as criaturas e seus contextos, Tchekhov consegue esculpir num bronze que se move, que se expande e contrai a cada cinzelada, que quase nunca é o mesmo.

É fascinante que você acabe terminando de ler uma história dizendo: “É isso, é assim mesmo!” Mas depois para pra pensar e percebe que, daquela personagem, talvez uma que outra característica você já tenha encontrado, um ou outro trejeito, um ou outro laivo de sensibilidade ou agressividade ou indiferença. Mas aquele sujeito você não conheceu. Ele não existe.

Donde, portanto, a identificação? Por que essa sensação quase mordaz que nos persegue ao ler Tchekhov de que estamos navegando por águas que conhecemos embora não consigamos propriamente definir?

Em “A dama do cachorrinho” Dmítri Dmítritch Gurov é um pai de família como qualquer outro. Que tenha se casado cedo, enquanto ainda estava na Universidade, que tenha três filhos e que sua mulher hoje pareça mais velha do que ele, nada disso em Gurov é fora do comum.

Gurov traía a esposa de modo contumaz por sentir, com outras mulheres, que era “fácil calar-se”, o que lhe dava uma agradável sensação de despreocupação.

Ao se interessar pela ‘senhora com um cachorrinho’ do título (Ana Sierguéievna), também casada, não há nada de surpreendente na escolha de Gurov por seduzi-la e envolvê-la em mais um de seus relacionamentos fugazes e passageiros.

Mas a coisa como um todo complica. O casal, que havia se conhecido em uma cidade de retiro e descanso (Ialta) se separa, voltando cada um para suas vidas ordinárias. Ela volta para S., e ele para Moscou.

Gurov até se esforça por retomar sua vida cotidiana, por acreditar que tinha algum dever em voltar a ser parte daquela “vida absurda, sem asas, uma mixórdia qualquer” à qual estava ligado mais por imperativos geográficos do que morais.

Mas ele acaba voltando a pensar em Ana e decide procurá-la, levando aquele caso frugal a um nível diferente do que normalmente sempre fizera.

Sua peripécia imoral acaba se tornando para ele uma forma de novo fôlego de vida. Algo que o alimentava, embora ele não soubesse definir bem o porquê.

Ana, que se afirmava “infeliz, para sempre infeliz”, sentia que, ao prolongar aquele relacionamento deveras criminoso, “iria sofrer mais ainda”. E mesmo assim, não resistindo à investida de Gurov, pede que ele se vá e jura encontrá-lo em Moscou. Indolente, mas apaixonada, ela passa a viajar para encontrá-lo rotineiramente, dizendo ao marido que ia ver um “médico de doenças de senhoras”. Suspeito, mas indiferente, o marido de Ana “acredita, e não acredita” na desculpa.

“A dama do cachorrinho” é um conto da parte final da vida literária de Tchekhov,,que morreria em 1904. E de seus melhores momentos. Ele morreu aos 44 anos, vítima de tuberculose, e tinha passado um tempo se recuperando de uma crise em Ialta.

Já dono de uma extensa fieira de admiradores dentro de fora da Rússia, a muitos deles ele decepcionou com a história sem desfecho de Ana e Gurov.

Não sabemos o que acontece ao final com a história dos dois amantes imprevistos e um tanto descontrolados diante das circunstâncias.

As pessoas parecem esperar do autor uma onisciência que as acalme, que impeça o terrível mal-estar, o desgostoso desconforto de não saber muito bem o que está acontecendo, as causas, as verdadeiras causas de tudo aquilo que o ledor começa a julgar por certo ou errado, conveniente ou inconveniente, aceitável ou não, justo ou injusto.

Um dos encontros do casal em Moscou acontece após o pai zeloso levar a filha mais velha à escola. Durante o percurso, ele observa os transeuntes e  reflete sobre a vida autêntica, escondida e oprimida pelas convenções sob as quais todo homem vive.

Esse seu “mistério individual”, que “todo homem culto se afana por ver respeitado”, essa coisa que alimenta apesar do gosto de impureza, essa rebeldia possível de adulto, com enorme apelo às possibilidades trágicas, esse cenário composto para causar problema, e, pior, para causar problemas para os outros (o marido dela, a esposa dele, os filhos, etc.), tudo isso exercia sobre Gurov uma atração irresistível que sua experiência parecia dominar e controlar.

Mas, como todo aquele que se aventura a dar um passo a mais em território inexplorado, Gurov não sabe o que fazer.

Ele perde o controle, e, junto, perde o conforto, a segurança, a certeza do agir. Está diante de uma confusão para a qual não encontra saída, especialmente por não ter uma compreensão muito clara do que quer (Ana?) e do que não quer (a casa, a esposa?).

Mas Tchekhov encontrou uma saída para a reflexão que há milênios se faz costumeira entre homens e mulheres. Ele encontrou uma abertura nova para explorar, por meio da qual nos incomoda a ponto de nos demover de nossa posição confortável de árbitro do destino dos dois:

“Tinham a impressão de que mais um pouco e encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”.

Assim, a história acaba sem final. É de se conceber o impacto no leitor de fin-de-siècle, 1899, a decisão de não amarrar todas as pontas, de não bancar o deus da história.

Tchekhov apresenta ao incauto a era contemporânea. Se Nietzsche foi o profeta de um novo tempo, Tchekhov foi um aliado de primeira hora.

Quase ninguém compreendeu, em 1888, o quanto Nietzsche foi culturalmente visceral ao afirmar que Deus havia morrido.

O pensador alemão definia ali a morte dos fundamentos últimos, a morte da obsessão fundamentalista ocidental de encerrar em caracteres inescapáveis as soluções para a natureza, a vida do homem, suas crenças, seu passado e futuro, seu presente histórico.

Tchekhov abre mão de ser esse deus da obra.

Ele não só divide a sua tarefa com o leitor. Ele nos apresenta um meio pelo qual nosso papel cresce como intérpretes, como interlocutores. O que se trata por experiência da arte aqui é algo muito distinto do que sempre foi.

Estamos com Gurov e Ana: “Como libertar-se daqueles insuportáveis liames?”

Até hoje a maioria das pessoas não suporta uma reflexão não-normativa; a maioria das pessoas não compreende bem nem mesmo uma boa conversa que não termina em: “_ Bom, resumindo, nesse caso deve-se fazer isso!”

Gurov e Ana não sabem bem o que estão fazendo. Imagino o terrível momento em que a esposa de Gurov, descobrindo o caso extra-conjugal, interroga o marido: pelo menos, diga-me o porque?

Ansiamos por respostas definitivas, ansiamos pelo fundamento último. Mas será que, em última instância, não somos mesmo algo que não sabe direito o que é, muito menos o que quer?

Seja o que for, quando foi preciso escrever sobre isso, ninguém melhor do que Tchekhov foi capaz de fazê-lo.

Há uma querela antiga sobre a falta de desfecho e os elogios e as críticas a esse ponto na obra de Tchekhov, não só com relação a “A Dama do Cachorrinho”. Mas isso já passa perto daquela outra velha discussão sobre a fidelidade da pobre Capitu. Ou seja, é coisa de quem ainda não entendeu direito a coisa toda.

Com Tchekhov estamos um pouco ali onde Gurov, perto de seu final, ainda está até hoje diante do seu pequeno e pouco interessante drama existencial: como nos libertarmos desses liames insuportáveis, nossa finitude, nossa indecisão, nossa falta de coragem, nossa ansiedade. “_ Como? Como? – perguntava ele, pondo as mãos à cabeça. _ Como?”

Com “A dama do cachorrinho” Tchekhov nos ensinou que o melhor a fazer é reconhecer que o mais difícil, para cada um de nós, é compreender que não há respostas para um final definitivo ou, talvez, que o mais complexo sempre está por vir.