A história da lenda

Raul – o início, o fim e o meio (2011)

“Lenda não tem história. Lenda é lenda. O Raul é uma lenda

Paulo Coelho

Renato Niemeyer

Voilà! Com algum atraso, e não sem certa cobrança, finalmente me venho juntar ao grupo. Em minha defesa posso alegar que habitar longínquos rincões do varonil torrão não ajuda muito a cultivar a crítica cultural (se não por outro motivo, pela pura e simples falta de “material de trabalho”!). Mas não é nada que uma passagem pelos planaltos de Piratininga não resolva.

“Raul Seixas – o ínicio, o fim e o meio” não é uma obra-prima cinematográfica – dificilmente um documentário um dia será –, mas tem o mérito de contar de forma multilateral a história do maior artista da música brasileira.

Neste ponto acho importante dizer que sempre advoguei a imprestabilidade de listas de maiores, melhores e quejandos. Questões como “qual é a melhor música de todos os tempos?” ou “e o melhor filme?” sempre me suscitaram um certo desprezo. Todavia, em relação a Raul peço e mim mesmo uma licença poética para abrir uma exceção: ele foi o maior artista da música brasileira.

Raul foi um verdadeiro artista, daqueles poucos que ao longo da odisséia humana atravessaram a existência como um cometa. Como um cometa, Raul foi consumido por sua arte, frustrou e magoou muitos dos que atravessaram seu caminho e, ao fim, legou para a malta algo muito maior do que si mesmo.

Mas a história da lenda é também a história dos que com ele conviveram, e do lugar onde viveram, um Brasil sempre dominado pelo provincianismo e pelo colonialismo mental.

Raul começou sua história na Bahia no fim dos anos 50, onde ser “roqueiro” era quase uma aberração. A dificuldade começava na aquisição dos discos, que simplesmente não eram vendidos por lá. O adolescente Raul, como todo jovem, tinha sonhos de fama, fortuna e grandeza, os quais encontravam seu ícone em Elvis Presley, ídolo e modelo de Raul no início de sua vida.

Mas não demorou muito para Raul começar a misturar o rock’n roll de seus ídolos do além-mar com o baião do ídolo local, Luiz Gonzaga. Depois vieram outros ritmos. Raul misturou rock, baião, tango, country, rap (ou “pré-rap”) e outros ritmos em um país até hoje dividido entre copiar o rock estrangeiro e “honrar as raízes” da música tupiniquim. Raul não estava nem aí; para ele, rock e baião eram iguais.

Veio Paulo Coelho e, com ele, o misticismo, o “satanismo” e a piração. Raul ganhou dinheiro, cheirou e bebeu tudo, foi perseguido pela censura, saiu do Brasil, voltou na crista da onda de “Gita” e se separou do “mago”.

Veio Cláudio Roberto e mais grandes músicas. A piração então começou a cobrar seu preço e Raul começou a ser esquecido. Afastou-se dos palcos e afundou na bebedeira e no pó.

Por fim veio o polêmico Marcelo Nova, um último suspiro e… a morte.

Depoimento após depoimento, o filme conta a história de um artista pioneiro, que soube se reinventar várias vezes e que não se prendeu a nada (nem a ninguém) além da música. Raul manteve um estilo único e disse o que quis, não se deixando limitar por nenhum tema, ritmo, ideologia ou crença religiosa. Mudou e acompanhou um Brasil em mudança.

Mas Raul pagou um preço pessoal alto por sua “independência”. Sua vida foi compartilhada com seis mulheres. Com exceção da primeira, todas aparecem no filme e falam desse cometa incandescente que, no fundo, parece não se ter importado com nada além da arte. Infelizmente, para ele, parece que nenhuma delas concordava com Nélson Gonçalves (em “A volta do boêmio”) e, umas antes, outras depois, depois de um tempo todas se cansaram de ser relegadas ao segundo plano. Raul também não conviveu verdadeiramente com nenhuma de suas 3 filhas.

Para algumas pessoas, a transiência de Raul pode parecer oportunista. Pode-se achar que ele mudou conforme a conveniência e usou as pessoas ao longo do caminho. É uma interpretação. Não é a minha. Suas idas-e-vindas nada tiveram que ver com conveniência, moda ou momento. Ele foi um precursor, não um “maria-vai-com-as-outras”. Suas experimentações rítmicas até hoje são originais e têm um “quê” revolucionário, e muitas de suas letras contêm “verdades” atemporais (“verdade” vai entre aspas porque o próprio Raul cantou, com um toque de genialidade, que “a verdade do Universo é a prestação que vai vencer”). Nada disso me parece oportunismo.

O documentário, basicamente uma sequência de entrevistas atuais intercalada com vídeos do próprio Raul, é obviamente permeado por várias de suas músicas, sempre muito bem contextualizadas. Os vídeos do próprio Raul proporcionam alguns momentos bem engraçados ao documentário e revelam uma ironia fina e uma sagacidade que somente uma mente afiada pode patrocinar. Uma tarde com Raul devia ser uma experiência no mínimo enriquecedora. Zé Ramalho, que no filme não diz nada, uma vez definiu uns dias que passou com Raul como um divisor de águas em sua vida.

Aliás, uma das coisas mais interessantes do filme é notar que apesar da relativa “tragédia pessoal” da vida de Raul, à exceção de sua primeira mulher todos falam dele com aquela condescendência carinhosa franqueada apenas àqueles que transcendem, e muito, a mediocridade (atitude imortalizada no personagem “Schindler” de “Minha amada imortal”).

Não deixa de ser divertido também acompanhar a briga de egos do legado da lenda. Quem foi seu maior parceiro? Qual foi a mulher que ele mais amou? (Essa última “disputa” é das mais patéticas e, por isso mesmo, das mais divertidas.)

Enfim, o filme mostra um homem que viveu um sonho, um sonho que o consumiu e que consumiu especialmente aqueles que mais se aproximaram dele. Mas também mostra um sonho que nos legou a todos algo duradouro. Já se vão quase 23 anos da morte de Raul, mais de 35 do lançamento de seus maiores sucessos, e suas músicas continuam sendo tocadas, ouvidas e, principalmente, continuam fazendo pensar (algo que as músicas atuais sequer se propõem a fazer).

Para mim Raul não teve escolha. Como disse Pedro Bial no filme, “o Raul não pensava; ele era um vômito; aquilo vinha de dentro dele”. A arte lhe tomou a vida emprestada e fez dele a sua voz. A arte lhe deu a vida e depois lha tirou.

Também pode ser que nada disso seja verdade. Pode ser que Raul tenha sido um enorme enrolador, um embuste, apenas mais um músico que passou pelas vitrolas brasileiras.

Com o perdão da péssima referência, fico com Paulo Coelho: “Lenda não tem história. Lenda é lenda. E o Raul é uma lenda.”.

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