Não esquecer

Caros,

Não esqueçam de assistir a esse filme, sério.

Sem mais,

att. “à” Direção.

Mas, se por acaso você estiver de bobeira na locadora e quiser alugar dois filmes, além de incêndios, pode ser esse aqui:

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Semana Cinema

Aproveitando as opções que a locadora aqui perto de casa tem a oferecer (e não são poucas), aluguei um bocado de filmes e passo a fazer um breve comentário sobre cada um, pois certamente valem a pena ser vistos.

“Cópia Fiel” foi uma das opções porque na época em que estava em cartaz foi alvo de duras críticas por parte de alguns amigos que foram ao cinema assisti-lo. Resolvi tirar minhas próprias conclusões e acho que compreendo o motivo das críticas. Realmente o filme não é dos mais animados. É um drama “daqueles”, que no final você diz pra si mesmo “Puta vida escrota do caralh*”. No entanto, apesar da falta de “animação”, o filme é belo e tem diálogos muito interessantes, que nos levam à reflexão. Devo dizer que gostei muito, muito mesmo desse filme. Ele foi me conquistando aos poucos.

O estilo de filmagem é como um “Antes do amanhecer”, pois o filme inteiro se resume a diálogos entre um homem e uma mulher (interpretada pela Juliette Binoche). Só nisso se parece com Antes do amanhecer, pois enquanto no desenrolar deste surge uma paixão avassaladora entre os personagens, naquele há um papo complexo, que você até demora um pouco a entender a real situação dos personagens.

É difícil fazer mais comentários sobre o filme sem revelar o segredo por trás da história, por isso vou me ater somente a isso… Mas digo: qualquer pessoa um dia passou ou passará pela situação, infelizmente.

“A banda” é um filme israelense que conta a história da Orquestra da Polícia de Alexandria visitando Israel para fazer uma apresentação. No entanto, a banda não consegue chegar a cidade correta, tendo que passar a noite na cidade “errada” com a ajuda de alguns moradores. A chegada da banda muda muito a rotina do lugar e de seus moradores. Nota-se que a mudança é geral, inclusive dos músicos. Não é meu estilo de filme favorito, mas conheço pessoas que adoraram, motivo pelo qual resolvi fazer esse comentário.

“Conselho é como cu, cada um tem o seu” (A guerra dos botões)

“A Guerra dos Botões” (La Guerre des boutons) é, como diria um amigo meu “um filme para sair feiz do cinema”. Quem estiver cansado de drama, pode alugar… É muito bonitinho e alegre.. vale muuuito a pena. Dois grupos rivais, os Velrans e Longeverne travam guerras o filme inteiro. É muito bonitinho de se ver a cumplicidade entre os amigos e as brincadeiras que tanto nos remete a infância.

Medianeras: sobre a fragilidade dos laços humanos.

“A internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida”

Pronto. Finalmente respirei fundo e decidi escrever um texto para o blog. Como havia mencionado no primeiro post, achei que o filme “Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual” seria tema de uma postagem mais extensa. Pois bem. Aí vai.

Apesar de ter ficado em cartaz por muitas semanas em São Paulo, deixei de assistir a esse filme por um simples motivo: o título não me agradou. Culpa: tradução.

Eu queria saber quem é a criatura que tem a péssima ideia de acrescentar “Buenos Aires na Era do amor Virtual” ao título de um filme que chama-se, apenas, “Medianeras” no original. Falar em Buenos Aires na era do amor virtual não ajudou a entender o que raios significa Medianeras. O pior foi que o filme liderou o ranking dos melhores da Vejinha, fato que contribuiu para a minha resistência, uma vez que eu raramente concordo com as notas atribuídas aos filmes (até hoje sou ressentida porque a crítica maluca não curtiu Cisne Negro.. só perdoei depois que deu 4 estrelas para “Minhas Tardes com Margueritte”).

Ainda bem que tenho amigos com alto poder de persuasão: fui convencida a assistir ao filme. Que bom!!!! Foi uma grata surpresa.

O filme não é ambicioso ou arrogante, o que pra mim é um ponto super positivo. Nem sempre estou disposta a assistir filmes com profundos questionamentos. Acho que fiquei um pouco traumatizada após assistir a colação do Almodóvar. Apesar de ser um cineasta consagrado, os filmes dele causam cansaço em mim.

Antes mesmo de começar a história, Medianeras já me atraiu pela trilha sonora. A primeira música a ser ouvida foi “Ain’t no moutain high enough” – Marvin Gaye e Tammi Terrel. Eu ADORO Marvin Gaye… e ADORO essa música… além de bonitinha é um clááááááássico. Portanto, não poderia deixar de postá-la, para “ornar” o texto.

Medianeras trata de uma questão muito recorrente no mundo moderno: a fragilidade das relações humanas.Antes mesmo de começar a história (parte II), um dos personagens principais faz uma análise urbanística de Buenos Aires (momento em que explica o significado da palavra Medianeras), para ao final, estabelecer um paralelo entre essa desorganização urbana e as relações humanas. Achei sensacional.

Dois são os personagens principais, que não se conhecem, mas que passaram por situações semelhantes, ligadas a relacionamentos passados.

Outro fator relevante a ser mencionado é que neste filme não temos a atuação do Ricardo Darín. Nada contra o ator, ao contrário, gosto muito dele, mas às vezes tenho a impressão de que ele é o único ator argentino existente.

Como foi dito, os protagonistas tem certas coisas em comum, a além de terem vivido relacionamentos duradouros, ambos também sofrem de males que atingem as pessoas no mundo moderno: são antissociais, têm fobias, dificuldade de integrar grupos, são individualistas e introspectivos. Também sofrem depressão, sentem-se solitários quando cercados por multidões, têm crises existenciais. Sentem-se irrelevantes diante do mundo. Parece exagerado, mas acho que isso é muito recorrente hoje em dia.

Talvez nem todos que leiam esse blog se identifiquem com este tema, mas acho que o filme não se restringe apenas a tratar de relacionamentos virtuais, até porque o casal não se conhece por meio da internet, mas da incapacidade das pessoas se relacionarem no mundo moderno. Como as relações acontecem e terminam repentinamente.

“Há mais de dez anos sentei em frente ao computador e tenho a sensação de que nunca mais levantei”

Muitos outros pontos se mostraram interessantes no filme, como uma constatação da personagem feminina sobre seu último relacionamento: X megabytes de fotos tiradas ao longo de 4 anos de relacionamento sendo deletadas definitivamente em menos de 5 segundos.

“Relacionamentos são como combos do MC Donalds: na foto são grandes e suculentos mas na realidade não são tudo isso. Eu sempre me arrependo ao abrir um pacote de big mac”.

Essa facilidade de se desprender virtualmente dá uma falsa sensação de independência e força nas pessoas. No entanto, na vida real, não esquecemos e não nos desapegamos com tanta facilidade.

É muito paradoxal possuir tantas ferramentas de comunicação ao nosso dispor e ao mesmo tempo a comunicação ser tão falha e escassa. O aumento das ferramentas de comunicação é inversamente proporcional à capacidade das pessoas se comunicarem e se compreenderem.

Pensamento sobre esse assunto me ocorreu Zygmunt Bauman. Acho que o filme tem tudo a ver com o que ele escreve:

“Elas são ‘relações virtuais’. Ao contrário dos relacionamentos antiquados (para não falar daqueles com ‘compromisso’, muito menos dos compromissos a longo prazo), elas parecem feitas sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as ‘possibilidades românticas’ (e não apenas românticas) surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de “ser a mais satisfatória e a mais completa”. Diferentemente dos “relacionamentos reais”, é fácil entrar e sair dos ‘relacionamentos virtuais’. Em comparação com a ‘coisa autêntica’, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação eletrônica: ‘Sempre se pode apertar a tecla de deletar’”.

“Em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados. Como resultado, o conjunto de experiências às quais nos referimos com a palavra amor expandiu-se muito. Noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de ‘fazer amor’”.

Trechos retirados de “Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos” – Editora Zahar

Talvez a lição que fique disso tudo seja um despertar para essa realidade e não permitir que sejamos dominados pela tecnologia. A evolução digital é uma ótima ferramenta, desde que seja utilizada com parcimônia e ao nosso favor.

A história da lenda

Raul – o início, o fim e o meio (2011)

“Lenda não tem história. Lenda é lenda. O Raul é uma lenda

Paulo Coelho

Renato Niemeyer

Voilà! Com algum atraso, e não sem certa cobrança, finalmente me venho juntar ao grupo. Em minha defesa posso alegar que habitar longínquos rincões do varonil torrão não ajuda muito a cultivar a crítica cultural (se não por outro motivo, pela pura e simples falta de “material de trabalho”!). Mas não é nada que uma passagem pelos planaltos de Piratininga não resolva.

“Raul Seixas – o ínicio, o fim e o meio” não é uma obra-prima cinematográfica – dificilmente um documentário um dia será –, mas tem o mérito de contar de forma multilateral a história do maior artista da música brasileira.

Neste ponto acho importante dizer que sempre advoguei a imprestabilidade de listas de maiores, melhores e quejandos. Questões como “qual é a melhor música de todos os tempos?” ou “e o melhor filme?” sempre me suscitaram um certo desprezo. Todavia, em relação a Raul peço e mim mesmo uma licença poética para abrir uma exceção: ele foi o maior artista da música brasileira.

Raul foi um verdadeiro artista, daqueles poucos que ao longo da odisséia humana atravessaram a existência como um cometa. Como um cometa, Raul foi consumido por sua arte, frustrou e magoou muitos dos que atravessaram seu caminho e, ao fim, legou para a malta algo muito maior do que si mesmo.

Mas a história da lenda é também a história dos que com ele conviveram, e do lugar onde viveram, um Brasil sempre dominado pelo provincianismo e pelo colonialismo mental.

Raul começou sua história na Bahia no fim dos anos 50, onde ser “roqueiro” era quase uma aberração. A dificuldade começava na aquisição dos discos, que simplesmente não eram vendidos por lá. O adolescente Raul, como todo jovem, tinha sonhos de fama, fortuna e grandeza, os quais encontravam seu ícone em Elvis Presley, ídolo e modelo de Raul no início de sua vida.

Mas não demorou muito para Raul começar a misturar o rock’n roll de seus ídolos do além-mar com o baião do ídolo local, Luiz Gonzaga. Depois vieram outros ritmos. Raul misturou rock, baião, tango, country, rap (ou “pré-rap”) e outros ritmos em um país até hoje dividido entre copiar o rock estrangeiro e “honrar as raízes” da música tupiniquim. Raul não estava nem aí; para ele, rock e baião eram iguais.

Veio Paulo Coelho e, com ele, o misticismo, o “satanismo” e a piração. Raul ganhou dinheiro, cheirou e bebeu tudo, foi perseguido pela censura, saiu do Brasil, voltou na crista da onda de “Gita” e se separou do “mago”.

Veio Cláudio Roberto e mais grandes músicas. A piração então começou a cobrar seu preço e Raul começou a ser esquecido. Afastou-se dos palcos e afundou na bebedeira e no pó.

Por fim veio o polêmico Marcelo Nova, um último suspiro e… a morte.

Depoimento após depoimento, o filme conta a história de um artista pioneiro, que soube se reinventar várias vezes e que não se prendeu a nada (nem a ninguém) além da música. Raul manteve um estilo único e disse o que quis, não se deixando limitar por nenhum tema, ritmo, ideologia ou crença religiosa. Mudou e acompanhou um Brasil em mudança.

Mas Raul pagou um preço pessoal alto por sua “independência”. Sua vida foi compartilhada com seis mulheres. Com exceção da primeira, todas aparecem no filme e falam desse cometa incandescente que, no fundo, parece não se ter importado com nada além da arte. Infelizmente, para ele, parece que nenhuma delas concordava com Nélson Gonçalves (em “A volta do boêmio”) e, umas antes, outras depois, depois de um tempo todas se cansaram de ser relegadas ao segundo plano. Raul também não conviveu verdadeiramente com nenhuma de suas 3 filhas.

Para algumas pessoas, a transiência de Raul pode parecer oportunista. Pode-se achar que ele mudou conforme a conveniência e usou as pessoas ao longo do caminho. É uma interpretação. Não é a minha. Suas idas-e-vindas nada tiveram que ver com conveniência, moda ou momento. Ele foi um precursor, não um “maria-vai-com-as-outras”. Suas experimentações rítmicas até hoje são originais e têm um “quê” revolucionário, e muitas de suas letras contêm “verdades” atemporais (“verdade” vai entre aspas porque o próprio Raul cantou, com um toque de genialidade, que “a verdade do Universo é a prestação que vai vencer”). Nada disso me parece oportunismo.

O documentário, basicamente uma sequência de entrevistas atuais intercalada com vídeos do próprio Raul, é obviamente permeado por várias de suas músicas, sempre muito bem contextualizadas. Os vídeos do próprio Raul proporcionam alguns momentos bem engraçados ao documentário e revelam uma ironia fina e uma sagacidade que somente uma mente afiada pode patrocinar. Uma tarde com Raul devia ser uma experiência no mínimo enriquecedora. Zé Ramalho, que no filme não diz nada, uma vez definiu uns dias que passou com Raul como um divisor de águas em sua vida.

Aliás, uma das coisas mais interessantes do filme é notar que apesar da relativa “tragédia pessoal” da vida de Raul, à exceção de sua primeira mulher todos falam dele com aquela condescendência carinhosa franqueada apenas àqueles que transcendem, e muito, a mediocridade (atitude imortalizada no personagem “Schindler” de “Minha amada imortal”).

Não deixa de ser divertido também acompanhar a briga de egos do legado da lenda. Quem foi seu maior parceiro? Qual foi a mulher que ele mais amou? (Essa última “disputa” é das mais patéticas e, por isso mesmo, das mais divertidas.)

Enfim, o filme mostra um homem que viveu um sonho, um sonho que o consumiu e que consumiu especialmente aqueles que mais se aproximaram dele. Mas também mostra um sonho que nos legou a todos algo duradouro. Já se vão quase 23 anos da morte de Raul, mais de 35 do lançamento de seus maiores sucessos, e suas músicas continuam sendo tocadas, ouvidas e, principalmente, continuam fazendo pensar (algo que as músicas atuais sequer se propõem a fazer).

Para mim Raul não teve escolha. Como disse Pedro Bial no filme, “o Raul não pensava; ele era um vômito; aquilo vinha de dentro dele”. A arte lhe tomou a vida emprestada e fez dele a sua voz. A arte lhe deu a vida e depois lha tirou.

Também pode ser que nada disso seja verdade. Pode ser que Raul tenha sido um enorme enrolador, um embuste, apenas mais um músico que passou pelas vitrolas brasileiras.

Com o perdão da péssima referência, fico com Paulo Coelho: “Lenda não tem história. Lenda é lenda. E o Raul é uma lenda.”.

Não existe reencontro para os dinossauros

A árvore da vida (Terence Malick, 2011)

Quando os primeiros filósofos gregos refletiram sobre o termo “natureza” eles não representavam um objeto acabado, um dado fixo significando o universo. A natureza era compreendida como um processo de geração contínua, um constante vir-a-ser. As primeiras divergências que marcaram o pensamento filosófico tratavam justamente de uma definição para o motor desse processo de geração, diziam respeito a elucidar se havia e qual seria o princípio determinante desse processo.

Para a mentalidade ocidental antiga, contudo, embora a physis fosse um processo constante o universo era definido como um plano limitado, relativamente estanque e circunscrito. O papel do homem também estava preso a esse mundo que tem uma parte de cima, uma parte de baixo, em que a abóboda celeste é um cenário e a terra firme é um palco. Alguns são animais comuns (mais), outros (bem menos) são os que usam a razão e podem até modificar o mundo. Mas nenhum deixa de ser parte da physis.

Claro que o animal social que somos sempre teve um papel fundamental nessa trama de geração contínua num espaço sempre entendido como limitado (cidade, campo, Olimpo, Céu, Inferno, Asgard, tanto faz), mas esse protagonismo poucas vezes foi encenado com importância semelhante à que Terence Malick propôs em seu poema audiovisual “A Árvore da vida”, palma de ouro em Cannes em 2011. Malick quebra o padrão, e propõe que a criação que veio dar nos humanos abriu-se para um mais além, sem limites. Por isso, muita gente define o filme como “religioso”, o que é, evidentemente, uma simplificação que não ajuda a compreender o alcance da obra.

Embora as primeiras noções de infinito na filosofia ocidental datem ainda do tempo dos pré-socráticos, temos poucas representações grandiosas para afirmar que o eterno e constante vir-a-ser geracional da natureza tem algo a ver com qualquer coisa de infinito e ilimitado dentro de nós.

“A árvore da vida” encena a vida de uma família comum do interior do Texas, pai (Brad Pitt), mãe (Jessica Chastain), três filhos. O pai é disciplinador, duro e rigoroso, embora demonstre compreender bem, por dever religioso, que é preciso amar os filhos. A mãe é angelical, protetora, resume o afeto e a compreensão sem limites. Em certo sentido, a mãe é o bicho que toma conta da casa, o pai é o bicho que relaciona a casa com o mundo. As crianças são os bichinhos que crescem na casa, aprendendo, aos poucos, aqui e acolá, que entre a casa e o mundo lá fora, que entre o pai e a mãe, o que quer que exista de próprio e vital dentro deles precisa se desenvolver de modo a sobreviver.

Por mais de 50 minutos assistimos, sem diálogos, a imagens belíssimas sobre a criação do universo e do planeta. Nos identificamos com a biodiversidade e com a destruição cíclica da vida natural da Terra e chegamos a quase nos emocionar com a piedade de um dinossauro diante de outro, ferido, que ele evita destrinçar. No apogeu, a geração do mundo vai dar na casa dos homens. A fotografia é encantadora e simples e há mesmo momentos no filme em que você não só se esquece de que os diálogos são importantes, mas também lamenta que eles apareçam. Daí que as narrações em off, apesar de bem dosadas, em alguns momentos pareçam exceder ao tentar traduzir a imagem, suprimindo um pouco o poder do visual. Mas isso não atrapalha o conjunto. Apesar de vivermos numa era de excessos em termos de imagem, é raro termos contato com a imagem integral. Nesse ponto o poema de Malick é um antídoto contra a epilepsia visual em que nos movemos no dia a dia virtual e é preciso um tempo mental cada vez menos disponível para se dedicar aos seus 138 minutos de duração.

Como alavanca fundamental da composição, Sean Penn, no papel de um dos filhos, já bem mais velho, rememora a casa dos pais, sua infância, a dor da perda, o amor da mãe e a inflexibilidade do pai. É por seus olhos, vivendo no habitat de uma cidade grande, entre prédios enormes e de arquitetura refinada, que compreendemos a distância que existe entre a explosão geracional de uma galáxia e a relação que o personagem tem com a própria infância, com a lembrança do irmão mais velho, com as saudades da mãe, com a presença inafastável do pai.

Na memória do garoto, há uma cena, belíssima, em que a família precisa deixar a casa em que as crianças nasceram. A importância da cena decorre da simplicidade com que foi filmada. Poucas vezes me senti tão próximo de todos os outros bichos da natureza, poucas vezes senti num filme a humanidade tão natural que existe em nós. Mas, de uma estrela em formação ao dinossauro extinto, de uma galáxia nascendo e morrendo às bactérias saindo do charco primitivo quem, dentre todos, olha pra trás?

Estranho ler muita gente escrevendo que Malick, cristão conservador, fervoroso, compôs um conto bíblico sobre a importância da família. Um filme bíblico com dinossauros e bactérias que vão dar nos humanos? Acima disso, preocupa-me o olhar do filho que lembra da casa, que rememora o pai. Preocupa-me o mundo sem fim que reside na saudade de um abraço da mãe e a vontade de subir na árvore do quintal. Chama a atenção a expectativa por esse abraço que a gente sempre quer voltar a dar, por aquela tarde de que você se lembra e que por mais simples que tenha sido ameaça sua honestidade emocional. Que o nascimento de um bebê se encaixe perfeitamente na harmonia de um universo infinito sempre em formação, como parte desse todo, é algo até comum de reconhecer. Que o bebê cresça e filme o seu papel nesse processo sem fim em busca de um abraço eternamente pendente, aí temos uma obra de arte.

Rodolfo Jacarandá