O céu estrelado sobre nós

Melancholia (Lars Von Trier, 2011)

“No filme, o céu estrelado sobre nós e as determinações morais em nós estão em rota de colisão. Sem um pasto firme, sem as árvores no lugar o bicho humano é bem menos causa do que se imagina…”

Rodolfo Jacarandá

 

 

 

O último filme do polêmico diretor dinamarquês Lars von Trier conta a história de duas irmãs: Justine e Claire. Enquanto a publicitária genial Justine (Kirsten Dunst, Palma de Ouro de Melhor Atriz, em Cannes, em 2011) se casa numa longa e minuciosa cerimônia, planejada pela irmã Claire, na paradisíaca e isolada propriedade do marido desta, John (Kiefer Sutherland), um planeta azul, gigantesco, se aproxima ameaçando destruir a Terra. Embora existam dúvidas sobre se o planeta irá ou não chocar-se contra nosso mundo, Justine parece a única pessoa que não se importa com o que o destino reserva aos habitantes do planeta.

A estranha indiferença de Justine é um contraste em face da apreensão de todos. Seu desdém pela vida comum, que chega a lembrar uma forma delicada e romântica de autismo, atinge até mesmo a própria cerimônia de casamento. O enfado de Justine somente é levemente abalado pelo atrito ocasional entre os pais dela, separados há muito, e intragáveis entre si, e pela irritação que demonstra pelos sonhos ordinários do marido. Enquanto indagamos pela genialidade que sua indiferença esconde, a possibilidade do fim do mundo é, na sua cabeça, uma hipótese para depois. Todos a querem feliz e parecem dispostos a fazer de tudo para que isso aconteça.

Quando a narrativa sobre a vida ansiosa e insegura da irmã, Claire, passa a consumir maior tempo na tela o até então coadjuvante planeta viajante, Melancholia, se torna uma figura principal do drama.

Lars von Trier propõe uma reflexão sobre a essência humana confrontando o imperativo do mundo físico e o quase indevassável mundo moral interior dos bípedes sapiens. É difícil encontrar um meio termo na  trama. A indiferença de Justine pode parecer sandice, mas a irrefreável ansiedade de Claire não é lá muito inspiradora. Claire é mãe, e ao vislumbrar a desgraça ela corre, luta contra a fraqueza do marido, tenta se esconder, procura ajuda, quer proteger o filho. Mas diante do desastre inevitável não há o que fazer. O único refúgio que ela encontra é no abrigo imaginário da irmã, que, aparentemente, compreende que não precisa correr porque a ameaça não pode atingi-la naquilo que a sustenta: o enigmático emaranhado mental que forja sua existência sem lugar neste mundo.

O par Justine-Claire é uma metáfora da condição humana nos moldes de um dualismo de raízes platônico-cristãs, mas que me lembra fortemente Kant: na relação entre mundo moral e mundo físico a nossa tendência nos últimos séculos é ver o homem como motor da criação. Mas basta um abalo mais forte que atinja nosso senso de realidade – guerras, desastres naturais, a proximidade da morte, simplesmente – e a projeção mental de um sujeito criador dá lugar a um animal comum correndo enlouquecido, em busca instintiva pela sobrevivência. No filme, o céu estrelado sobre nós e as determinações morais em nós estão em rota de colisão. Sem um pasto firme, sem as árvores no lugar o bicho humano é bem menos causa do que se imagina, propõe o filme de Trier.

É engraçado que Claire, tentando fugir, queira estar perto de outras pessoas, talvez esperando compartilhar seu sofrimento com outros sofredores para amenizar a dor da espera pela morte. Nada mais humano, diriam os naturalistas. Justine, por sua vez, contempla o inimigo e se desnuda, compondo um quadro em que a palidez da sua pele, no reflexo da luz azul, à beira de um lago, confundiria êxtase e criatividade, como nenhum outro ser da natureza seria capaz de fazer. Mas se o que há de humano em Justine é o testemunho de sua vitalidade interior, uma certa potência superior às necessidades da vida física, não podemos saber bem do que se trata, por que o mundo interior, não-físico, no qual Justine vive é indevassável. Se o melhor da história humana depende mais daquilo que se esconde em nossas pulsões invisíveis do que aquilo que enxergamos sobre o chão em que nos movemos então não parecerá tão trágico que esse chão desapareça de vez. Se a vida humana é mesmo incompreensível em sua essência, a falta do planeta não fará muita diferença.

15/01/2012

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