Não existe reencontro para os dinossauros

A árvore da vida (Terence Malick, 2011)

Quando os primeiros filósofos gregos refletiram sobre o termo “natureza” eles não representavam um objeto acabado, um dado fixo significando o universo. A natureza era compreendida como um processo de geração contínua, um constante vir-a-ser. As primeiras divergências que marcaram o pensamento filosófico tratavam justamente de uma definição para o motor desse processo de geração, diziam respeito a elucidar se havia e qual seria o princípio determinante desse processo.

Para a mentalidade ocidental antiga, contudo, embora a physis fosse um processo constante o universo era definido como um plano limitado, relativamente estanque e circunscrito. O papel do homem também estava preso a esse mundo que tem uma parte de cima, uma parte de baixo, em que a abóboda celeste é um cenário e a terra firme é um palco. Alguns são animais comuns (mais), outros (bem menos) são os que usam a razão e podem até modificar o mundo. Mas nenhum deixa de ser parte da physis.

Claro que o animal social que somos sempre teve um papel fundamental nessa trama de geração contínua num espaço sempre entendido como limitado (cidade, campo, Olimpo, Céu, Inferno, Asgard, tanto faz), mas esse protagonismo poucas vezes foi encenado com importância semelhante à que Terence Malick propôs em seu poema audiovisual “A Árvore da vida”, palma de ouro em Cannes em 2011. Malick quebra o padrão, e propõe que a criação que veio dar nos humanos abriu-se para um mais além, sem limites. Por isso, muita gente define o filme como “religioso”, o que é, evidentemente, uma simplificação que não ajuda a compreender o alcance da obra.

Embora as primeiras noções de infinito na filosofia ocidental datem ainda do tempo dos pré-socráticos, temos poucas representações grandiosas para afirmar que o eterno e constante vir-a-ser geracional da natureza tem algo a ver com qualquer coisa de infinito e ilimitado dentro de nós.

“A árvore da vida” encena a vida de uma família comum do interior do Texas, pai (Brad Pitt), mãe (Jessica Chastain), três filhos. O pai é disciplinador, duro e rigoroso, embora demonstre compreender bem, por dever religioso, que é preciso amar os filhos. A mãe é angelical, protetora, resume o afeto e a compreensão sem limites. Em certo sentido, a mãe é o bicho que toma conta da casa, o pai é o bicho que relaciona a casa com o mundo. As crianças são os bichinhos que crescem na casa, aprendendo, aos poucos, aqui e acolá, que entre a casa e o mundo lá fora, que entre o pai e a mãe, o que quer que exista de próprio e vital dentro deles precisa se desenvolver de modo a sobreviver.

Por mais de 50 minutos assistimos, sem diálogos, a imagens belíssimas sobre a criação do universo e do planeta. Nos identificamos com a biodiversidade e com a destruição cíclica da vida natural da Terra e chegamos a quase nos emocionar com a piedade de um dinossauro diante de outro, ferido, que ele evita destrinçar. No apogeu, a geração do mundo vai dar na casa dos homens. A fotografia é encantadora e simples e há mesmo momentos no filme em que você não só se esquece de que os diálogos são importantes, mas também lamenta que eles apareçam. Daí que as narrações em off, apesar de bem dosadas, em alguns momentos pareçam exceder ao tentar traduzir a imagem, suprimindo um pouco o poder do visual. Mas isso não atrapalha o conjunto. Apesar de vivermos numa era de excessos em termos de imagem, é raro termos contato com a imagem integral. Nesse ponto o poema de Malick é um antídoto contra a epilepsia visual em que nos movemos no dia a dia virtual e é preciso um tempo mental cada vez menos disponível para se dedicar aos seus 138 minutos de duração.

Como alavanca fundamental da composição, Sean Penn, no papel de um dos filhos, já bem mais velho, rememora a casa dos pais, sua infância, a dor da perda, o amor da mãe e a inflexibilidade do pai. É por seus olhos, vivendo no habitat de uma cidade grande, entre prédios enormes e de arquitetura refinada, que compreendemos a distância que existe entre a explosão geracional de uma galáxia e a relação que o personagem tem com a própria infância, com a lembrança do irmão mais velho, com as saudades da mãe, com a presença inafastável do pai.

Na memória do garoto, há uma cena, belíssima, em que a família precisa deixar a casa em que as crianças nasceram. A importância da cena decorre da simplicidade com que foi filmada. Poucas vezes me senti tão próximo de todos os outros bichos da natureza, poucas vezes senti num filme a humanidade tão natural que existe em nós. Mas, de uma estrela em formação ao dinossauro extinto, de uma galáxia nascendo e morrendo às bactérias saindo do charco primitivo quem, dentre todos, olha pra trás?

Estranho ler muita gente escrevendo que Malick, cristão conservador, fervoroso, compôs um conto bíblico sobre a importância da família. Um filme bíblico com dinossauros e bactérias que vão dar nos humanos? Acima disso, preocupa-me o olhar do filho que lembra da casa, que rememora o pai. Preocupa-me o mundo sem fim que reside na saudade de um abraço da mãe e a vontade de subir na árvore do quintal. Chama a atenção a expectativa por esse abraço que a gente sempre quer voltar a dar, por aquela tarde de que você se lembra e que por mais simples que tenha sido ameaça sua honestidade emocional. Que o nascimento de um bebê se encaixe perfeitamente na harmonia de um universo infinito sempre em formação, como parte desse todo, é algo até comum de reconhecer. Que o bebê cresça e filme o seu papel nesse processo sem fim em busca de um abraço eternamente pendente, aí temos uma obra de arte.

Rodolfo Jacarandá

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