Medianeras: sobre a fragilidade dos laços humanos.

“A internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida”

Pronto. Finalmente respirei fundo e decidi escrever um texto para o blog. Como havia mencionado no primeiro post, achei que o filme “Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual” seria tema de uma postagem mais extensa. Pois bem. Aí vai.

Apesar de ter ficado em cartaz por muitas semanas em São Paulo, deixei de assistir a esse filme por um simples motivo: o título não me agradou. Culpa: tradução.

Eu queria saber quem é a criatura que tem a péssima ideia de acrescentar “Buenos Aires na Era do amor Virtual” ao título de um filme que chama-se, apenas, “Medianeras” no original. Falar em Buenos Aires na era do amor virtual não ajudou a entender o que raios significa Medianeras. O pior foi que o filme liderou o ranking dos melhores da Vejinha, fato que contribuiu para a minha resistência, uma vez que eu raramente concordo com as notas atribuídas aos filmes (até hoje sou ressentida porque a crítica maluca não curtiu Cisne Negro.. só perdoei depois que deu 4 estrelas para “Minhas Tardes com Margueritte”).

Ainda bem que tenho amigos com alto poder de persuasão: fui convencida a assistir ao filme. Que bom!!!! Foi uma grata surpresa.

O filme não é ambicioso ou arrogante, o que pra mim é um ponto super positivo. Nem sempre estou disposta a assistir filmes com profundos questionamentos. Acho que fiquei um pouco traumatizada após assistir a colação do Almodóvar. Apesar de ser um cineasta consagrado, os filmes dele causam cansaço em mim.

Antes mesmo de começar a história, Medianeras já me atraiu pela trilha sonora. A primeira música a ser ouvida foi “Ain’t no moutain high enough” – Marvin Gaye e Tammi Terrel. Eu ADORO Marvin Gaye… e ADORO essa música… além de bonitinha é um clááááááássico. Portanto, não poderia deixar de postá-la, para “ornar” o texto.

Medianeras trata de uma questão muito recorrente no mundo moderno: a fragilidade das relações humanas.Antes mesmo de começar a história (parte II), um dos personagens principais faz uma análise urbanística de Buenos Aires (momento em que explica o significado da palavra Medianeras), para ao final, estabelecer um paralelo entre essa desorganização urbana e as relações humanas. Achei sensacional.

Dois são os personagens principais, que não se conhecem, mas que passaram por situações semelhantes, ligadas a relacionamentos passados.

Outro fator relevante a ser mencionado é que neste filme não temos a atuação do Ricardo Darín. Nada contra o ator, ao contrário, gosto muito dele, mas às vezes tenho a impressão de que ele é o único ator argentino existente.

Como foi dito, os protagonistas tem certas coisas em comum, a além de terem vivido relacionamentos duradouros, ambos também sofrem de males que atingem as pessoas no mundo moderno: são antissociais, têm fobias, dificuldade de integrar grupos, são individualistas e introspectivos. Também sofrem depressão, sentem-se solitários quando cercados por multidões, têm crises existenciais. Sentem-se irrelevantes diante do mundo. Parece exagerado, mas acho que isso é muito recorrente hoje em dia.

Talvez nem todos que leiam esse blog se identifiquem com este tema, mas acho que o filme não se restringe apenas a tratar de relacionamentos virtuais, até porque o casal não se conhece por meio da internet, mas da incapacidade das pessoas se relacionarem no mundo moderno. Como as relações acontecem e terminam repentinamente.

“Há mais de dez anos sentei em frente ao computador e tenho a sensação de que nunca mais levantei”

Muitos outros pontos se mostraram interessantes no filme, como uma constatação da personagem feminina sobre seu último relacionamento: X megabytes de fotos tiradas ao longo de 4 anos de relacionamento sendo deletadas definitivamente em menos de 5 segundos.

“Relacionamentos são como combos do MC Donalds: na foto são grandes e suculentos mas na realidade não são tudo isso. Eu sempre me arrependo ao abrir um pacote de big mac”.

Essa facilidade de se desprender virtualmente dá uma falsa sensação de independência e força nas pessoas. No entanto, na vida real, não esquecemos e não nos desapegamos com tanta facilidade.

É muito paradoxal possuir tantas ferramentas de comunicação ao nosso dispor e ao mesmo tempo a comunicação ser tão falha e escassa. O aumento das ferramentas de comunicação é inversamente proporcional à capacidade das pessoas se comunicarem e se compreenderem.

Pensamento sobre esse assunto me ocorreu Zygmunt Bauman. Acho que o filme tem tudo a ver com o que ele escreve:

“Elas são ‘relações virtuais’. Ao contrário dos relacionamentos antiquados (para não falar daqueles com ‘compromisso’, muito menos dos compromissos a longo prazo), elas parecem feitas sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as ‘possibilidades românticas’ (e não apenas românticas) surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de “ser a mais satisfatória e a mais completa”. Diferentemente dos “relacionamentos reais”, é fácil entrar e sair dos ‘relacionamentos virtuais’. Em comparação com a ‘coisa autêntica’, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação eletrônica: ‘Sempre se pode apertar a tecla de deletar’”.

“Em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados. Como resultado, o conjunto de experiências às quais nos referimos com a palavra amor expandiu-se muito. Noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de ‘fazer amor’”.

Trechos retirados de “Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos” – Editora Zahar

Talvez a lição que fique disso tudo seja um despertar para essa realidade e não permitir que sejamos dominados pela tecnologia. A evolução digital é uma ótima ferramenta, desde que seja utilizada com parcimônia e ao nosso favor.

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